Por que o dinheiro não chega nelas: o gap de capital dos negócios liderados por mulheres passa pela leitura de risco

Com 12% do venture capital e 42% de crédito negado, empreendedoras enfrentam um filtro que vai além do gênero: a forma como bancos e investidores leem negócios sem estrutura de gestão. Para a Work In, de Anndrêa Franco, profissionalizar a gestão, com inteligência artificial como infraestrutura, é parte da resposta

Os números do acesso a capital no empreendedorismo feminino brasileiro descrevem um funil que se estreita em todas as etapas. Apenas 12% dos recursos investidos pelos maiores fundos de venture capital do país vão para startups lideradas por mulheres, segundo levantamento da plataforma Startups. No crédito tradicional, 42% das mulheres empreendedoras têm pedidos negados. E, de acordo com o Sebrae, a remuneração das empreendedoras é 24% inferior à dos homens, o que reduz também a capacidade de reinvestimento com capital próprio.

O resultado aparece no topo: o Panorama Mulheres 2025, da Talenses com o Insper, mostra que apenas 17,4% das empresas pesquisadas são presididas por mulheres. A distância entre fundar um negócio e liderar uma empresa com relevância econômica é, em larga medida, uma distância de capital.

Parte da explicação está em vieses já documentados do mercado. Mas há um segundo componente, menos discutido e mais acionável: a forma como as instituições leem risco. Bancos e fundos avaliam previsibilidade de receita, organização financeira, processos e dependência da operação em relação ao fundador. Negócios que crescem com mais sobrecarga e menos tempo estratégico, quadro típico das empreendedoras, que segundo o IBGE dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, contra 11,7 horas dos homens, tendem a chegar à mesa de análise com menos estrutura formal. E negócio sem estrutura é lido como risco, independentemente do mérito de quem o lidera.

Forma-se, assim, um círculo vicioso: menos capital leva a menos estrutura; menos estrutura eleva o risco percebido; risco percebido maior resulta em menos capital. Romper esse ciclo exige agir na variável que está sob controle da empreendedora: a qualidade da gestão.

É nesse ponto que a Work In, empresa fundada pela empresária Anndrêa Franco com o objetivo de formar a próxima geração de mulheres CEOs do Brasil, posiciona sua tese. A companhia trata a inteligência artificial não como ferramenta de conteúdo, mas como infraestrutura de gestão: tecnologia aplicada a documentar processos, organizar o financeiro, estruturar o funil comercial e apoiar decisões com dados, elementos que compõem exatamente o que analistas de crédito e investidores examinam.

“O que se nega, na maioria das vezes, não é a empreendedora. É a ausência de estrutura que traduza o negócio em números. Quando a gestão vira dado, quando existe previsibilidade, processo e histórico organizado, a conversa com banco e investidor muda de patamar”, afirma Andreza Costa, partnership da Work In e cofundadora do Movimento Elas no Comando.

Na prática, o método da empresa, aplicado em imersões online gratuitas, programas presenciais, formações e treinamentos in company, parte da reestruturação estratégica do negócio: tirar a operação da dependência exclusiva da fundadora, dar previsibilidade ao comercial e transformar rotinas informais em processos documentados. O uso da IA entra como acelerador dessa profissionalização, ampliando capacidade de execução sem exigir aumento proporcional de equipe ou de capital.

“Não se trata de pedir que as mulheres provem mais do que já provam. Trata-se de construir empresas que os números consigam enxergar. Estrutura de gestão não é vaidade, é condição de acesso a capital e de poder econômico”, diz a fundadora.

Para o mercado, a leitura é dupla. No curto prazo, a profissionalização da gestão tende a melhorar as condições de acesso a crédito e investimento dos negócios liderados por mulheres, hoje subatendidos. No médio prazo, encurta o caminho entre a base do funil, onde as mulheres já empreendem em massa, e o topo, onde seguem sub-representadas. Se o gap de capital é também um gap de estrutura, fechá-lo passa menos por novas promessas e mais por gestão que os analistas consigam medir.

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