A importância de contratos tanto na expatriação quanto na repatriação executiva

Giovana Atarasi Jurca explica quais as principais cláusulas contratuais protegem a carreira, o patrimônio e a reputação de quem assume uma missão internacional

Ir para o exterior para comandar uma nova filial, abrir um mercado ou liderar uma integração pós-aquisição costuma ser tratado pelo executivo como um convite, uma validação da carreira que não se recusa. O que a maioria não trata com o mesmo cuidado é o contrato que sustenta essa decisão, e essa desatenção tem um custo que só aparece depois, quando já não há mais poder de negociação: no momento do retorno.

Giovana Atarasi Jurca, especialista na proteção de carreira, estruturação de contratos de mobilidade internacional e proteção patrimonial de altos executivos, observa um padrão recorrente: o executivo negocia bem as condições de ida, mas aceita a repatriação sem cláusula nenhuma, como se fosse um detalhe operacional, mas não é. É o ponto em que ele fica mais exposto e menos protegido.

Um vínculo que atravessa duas legislações

O executivo expatriado normalmente mantém o contrato com a empresa de origem, mas passa a atuar sob a legislação trabalhista, previdenciária e tributária do país anfitrião. Essa dupla sujeição não se resolve com um contrato genérico adaptado às pressas. Ela exige negociação explícita de pontos que, se ficarem vagos, deixam o executivo em uma situação frágil.

“Os contratos precisam tratar com clareza de remuneração, benefícios, regime de impostos, cobertura previdenciária, e, principalmente, as condições de retorno”, explica Giovana Atarasi Jurca. A equalização tributária (tax equalization) precisa tratar sobre quem vai arcar com a carga tributária. Sem essa cláusula, o executivo pode arcar sozinho com a diferença de carga tributária entre os dois países, um custo que corrói o ganho real da experiência internacional. Do ponto de vista previdenciário, há acordos bilaterais que previnem dupla contribuição e perda de tempo de contribuição previdenciária. Sem previsão contratual expressa remetendo a esses acordos (quando existentes) ou sem mecanismo equivalente, o executivo pode perder anos de contribuição previdenciária. Do ponto de vista da remuneração é preciso acordar como fica o vesting de stock options durante o período no exterior, se o cronograma de vesting continua correndo ou se será suspenso. Ademais, é preciso ter a garantia de reintegração em posição equivalente. O contrato precisa prever, com critérios objetivos que a repatriação assegura cargo, remuneração e benefícios equivalentes e não deixar uma cláusula aberta com termos de compatibilidade correspondente a estrutura do momento.

Repatriação: o momento em que o executivo perde poder de negociação

Se há um momento em que a fragilidade jurídica se manifesta com mais força, é o da repatriação. É comum encontrar empresas que investem significativamente na preparação cultural e linguística de quem vai para o exterior, mas nada preveem para o retorno. Esquecem, principalmente, do plano de carreira, do acompanhamento familiar e do prazo definido para a reintegração.

O resultado é previsível: o executivo volta sem posição definida, sem reconhecimento formal da experiência internacional na carreira e, com frequência, sob pressão para aceitar uma recolocação inferior à que tinha antes de sair, sob o argumento de que a vaga não existe ou houve uma reestruturação. Juridicamente, essa omissão pode configurar quebra da expectativa legítima gerada pelo próprio contrato de expatriação, e abre espaço para o executivo pleitear diferenças salariais, verbas rescisórias recalculadas pela remuneração internacional, ou reconhecimento de dano à progressão de carreira, mas isso só é exigível quando o contrato original previu parâmetros objetivos de retorno. Sem isso, o executivo está desamparado, sem lastro documental.

“Uma situação de repatriação instável gera um resultado previsível: profissionais que voltam desestimulados e inseguros, sem posição definida, sem reconhecimento formal da experiência internacional adquirida e, em muitos casos, sem perspectiva clara de progressão”, explica Giovana Atarasi Jurca, sócia-fundadora do Atarasi Jurca.

Informalidade como problema na expatriação e repatriação

Grande parte dos problemas com lideranças, que passam por uma experiência internacional, nasce de um mesmo hábito: tratar a expatriação como uma questão pessoal, conduzida caso a caso, em vez de uma política corporativa estruturada. Recrutamento por indicação, sem critérios objetivos; compensação baseada em tabelas de equivalência que raramente são revisadas; ausência de avaliação de desempenho específica para quem está fora; tudo isso fragiliza a relação entre executivo e empresa.

Giovana Atarasi Jurca, atuando na estruturação de contratos internacionais e políticas de mobilidade internacional, explica: “o executivo que aceita uma expatriação sem negociar cláusulas específicas de remuneração, regime de impostos, cobertura previdenciária e, principalmente, condições objetivas de repatriação, está transferindo para a empresa todo o poder de decisão sobre o próprio retorno. Isso não deveria ser tratado como confiança, deveria ser tratado como risco contratual evitável”.

O que muda para quem se protege antes de assinar

Uma missão internacional bem negociada deveria ser um ativo de carreira, não um risco assumido às cegas. Isso não depende de o executivo recusar a oportunidade, depende de proteger as condições do próprio retorno antes de embarcar: nome do cargo e critério objetivo de equivalência na volta, tratamento explícito do vesting, cláusula de equalização tributária e contribuição previdenciária.

Carreira internacional não se constrói apenas com uma proposta de internacionalização de carreira, mas com contratos que assegurem a expatriação e a repatriação.

Artigos Relacionados

O projeto de IA que funciona na demonstração e para na operação

Apenas 5% das empresas que investem em inteligência artificial generativa chegaram à produção com impacto financeiro mensurável, segundo levantamento do MIT. A distância entre demonstrar e operar tem causas identificáveis, e nenhuma delas está na qualidade do modelo

Quando todo mundo é gerente, quem realmente manda?

Giovana Atarasi Jurca analisa o que acontece no dia a dia empresarial e o descompasso com a legislação

Governança de IA: o ponto cego estratégico para empresas

A inteligência artificial já entrou nas empresas brasileiras. Em muitos casos, porém, entrou pelas portas dos fundos: sem aviso, sem registro e sem que a liderança percebesse

Gestão de viagens: o fator humano além da automação

Em um mercado em que a automação virou padrão básico, a capacidade humana de tomada de decisão sob pressão tornou-se a métrica definitiva de segurança operacional para os negócios

5ª edição do Prêmio ComunicAÇÃO celebra nomes que fazem história na comunicação do Sul Fluminense

Idealizado pelo colunista social Fábio Soares, evento reúne profissionais,...