O mercado global de médicos influenciadores explode: e o Brasil ainda hesita.

Enquanto o mundo transforma médicos em marcas, o Brasil ainda debate se isso é sério

Nos Estados Unidos, o Dr. Mike Varshavski tem 5 milhões de seguidores no YouTube e assina contratos com marcas globais que somam dezenas de milhões de dólares. Na Europa, médicos especialistas constroem audiências de seis dígitos ensinando pacientes sobre doenças crônicas, saúde mental e longevidade. Na Ásia, o mercado de health content protagonizado por profissionais de saúde credenciados cresce a dois dígitos ao ano. O mundo já descobriu que médico com voz vale dinheiro. E vale ainda mais do que médico sem ela.

No Brasil, a conversa ainda está presa numa pergunta que o resto do mundo já respondeu: médico pode ser influenciador?

O mercado global de criadores de conteúdo em saúde deve ultrapassar US$ 20 bilhões até 2026, segundo dados da Fortune Business Insights. Parte relevante desse volume é protagonizada por profissionais de saúde com formação clínica real, que encontraram nas redes sociais um canal para ampliar autoridade, atrair pacientes e construir receitas que o consultório tradicional não comporta. Por trás dessa transformação há uma indústria que cresceu em silêncio: o marketing médico. É ele que organiza a estratégia, define o posicionamento e transforma conhecimento clínico em audiência qualificada. É um mercado. Com metodologia, com profissionais especializados, com retorno mensurável.

O Brasil tem 635 mil médicos registrados, a quinta maior população do mundo e o Instagram como principal plataforma de informação do país. Tem tudo para ser um dos maiores mercados de autoridade médica digital do planeta. E hesita.

“O Brasil tem o público, tem a demanda, tem os profissionais. O que falta é o médico parar de achar que aparecer é incompatível com ser sério”, afirma Douglas Gomides, fundador do Doctor Creator, ecossistema de marketing médico com 18 anos de atuação no mercado brasileiro e autor de Marketing Médico 5.0. “Lá fora esse debate já foi superado. Aqui ainda estamos convencendo médico de que paciente usa Instagram.”

O preconceito tem endereço conhecido. Parte da classe médica ainda associa presença digital a superficialidade. Entidades do setor raramente incentivam médicos a construir audiência. Faculdades de medicina não ensinam comunicação. O resultado é um vácuo que o mercado não deixou vazio por muito tempo. Coaches de emagrecimento, influenciadores de lifestyle e criadores de conteúdo sem formação clínica ocuparam o espaço. O nicho de saúde é o segundo de maior interesse no Instagram brasileiro, presente em 46% dos usuários da plataforma, segundo a Opinion Box. A audiência sempre esteve lá. O médico é que não foi.

Os casos que começam a mudar essa equação mostram o tamanho do que está em jogo. A Dra. Juliana Paola, ginecologista especializada em menopausa, saiu de 4 mil para mais de 900 mil seguidores. O Dr. Keylon Lucarelli, nutrologista, foi de 7 mil para 180 mil. A Dra. Mariela Muniz, dermatologista, construiu parcerias com grandes marcas e viu sua receita crescer em proporção direta com sua audiência. A Dra. Lana Torres, especializada em medicina integrativa, transformou presença digital em agenda fechada e lista de espera. Nenhum deles abriu mão da medicina para virar influenciador. Todos usaram a medicina para construir influência. E todos chegaram lá com estratégia, não com sorte.

“O médico que construiu autoridade digital não é menos médico. É mais negócio”, diz Douglas Gomides. “E o mercado global já entendeu isso. O Brasil está chegando atrasado numa corrida que já tem vencedores.”

Atrasado e pagando o preço. Para o médico, é receita que não entrou, pacientes que escolheram outro profissional, parcerias com a indústria que ficaram com perfis sem diploma. Para o paciente, é informação consumida de fontes sem qualificação, num país onde conteúdos falsos sobre saúde criados com inteligência artificial triplicaram entre 2024 e 2025, segundo a Agência Lupa.

O mercado não esperou. Ele seguiu. E os médicos que entenderam isso primeiro estão colhendo o que plantaram enquanto os colegas ainda debatem se a terra é boa.

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