A aposta da BusCo para reinventar o ônibus interestadual: dados, assento extra e denúncia em tempo real

Nascida de uma joint venture entre dois gigantes do setor, a empresa tenta traduzir a fluidez de Amazon e iFood para o transporte rodoviário. O serviço que reserva o assento ao lado e o canal de denúncia 24 horas mostram a tese na prática, em um momento em que a viajante brasileira cobra mais conforto e segurança.

Quando entrou em operação em agosto de 2025, a BusCo decidiu não se olhar no espelho do próprio setor. Empresa de tecnologia em mobilidade criada a partir de uma joint venture entre os grupos Águia Branca e JCA, com investimento inicial de R$50 milhões, a companhia parte de uma premissa pouco comum no transporte rodoviário: a referência de qualidade não está em outras viações, mas na experiência digital de gigantes como Amazon e iFood. A ideia é tratar quem compra uma passagem de ônibus como quem usa um serviço de tecnologia, do clique ao desembarque.

Para o CEO da empresa, Cláudio Souza, executivo com mais de duas décadas em tecnologia e negócios digitais, a distinção é o ponto de partida do negócio. “A gente não vende passagem, vende uma experiência de mobilidade. O momento mágico não é o clique da compra, é a hora em que o cliente desce do ônibus com a certeza de que a viagem aconteceu como ele planejou”, afirma. A frase resume a aposta da BusCo de que o crescimento no rodoviário, hoje, passa obrigatoriamente por tecnologia, e não por escala de frota.

Os números dos primeiros meses dão musculatura ao discurso. Em menos de dez meses de operação, a empresa saiu do zero para cerca de R$5 milhões mensais em vendas, operando 13 rotas e transportando até 2 mil passageiros por dia em sua primeira fase. A sede fica em Barueri (SP), e a malha conecta capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Vitória e Florianópolis. Toda a jornada é digital: compra online, embarque por QR Code, pagamento via Pix ou cartão, e precificação dinâmica baseada em demanda, no modelo já consagrado pelo setor aéreo.

Por trás da velocidade está um arranjo que a empresa considera seu diferencial: a união entre a tradição dos investidores, com décadas de estrada, e a agilidade de um time montado do zero, com gente vinda de outras indústrias. Souza credita a esse modelo a nota de clima interno da companhia, um NPS (índice de satisfação do cliente) de 96, ao que chama de uma cultura em que cada colaborador opera com cabeça de dono.

É nesse terreno, o da experiência, que entram os dois movimentos mais recentes da marca. O primeiro é o Busco + Conforto, serviço que permite ao passageiro pagar um valor adicional para reservar o assento ao lado, que fica vazio, garantindo mais espaço e privacidade durante o trajeto. O segundo é um canal de denúncia disponível 24 horas, com prioridade máxima de atendimento, pensado para ser acionado durante a própria viagem, e não apenas como registro posterior. Os dois traduzem, em produto, a tese de que tecnologia no rodoviário serve para resolver problemas reais de quem viaja, não só para vender bilhete.

E há um público para quem essa camada extra de conforto e segurança conversa de forma direta. Levantamento do Ministério do Turismo em parceria com a Unesco, feito com 2.712 mulheres entre agosto e setembro de 2025, mostra que 41,8% das brasileiras já viajaram sozinhas e que 31,4% repetem a experiência com frequência. O mesmo estudo, porém, aponta que 62% delas já deixaram de viajar por questões de segurança. Para um serviço como o Busco VIP, que não é exclusivo para mulheres, mas oferece justamente mais espaço e tranquilidade, o dado funciona como termômetro de uma demanda que o setor ainda atende mal.

Souza enxerga aí parte de uma ambição maior, a de elevar o padrão do transporte rodoviário como um todo. “Não transportamos só pessoas, transportamos vidas e sonhos. Por isso a segurança no embarque e desembarque é inegociável”, diz. Segundo ele, ao oferecer um serviço com padrão mais alto por um preço competitivo, a empresa ajuda a reduzir o apelo do transporte clandestino, que ainda expõe passageiros a riscos à margem da lei.

O plano de longo prazo, conta o executivo, não para no ônibus. A intenção é integrar a jornada de ponta a ponta, conectando a plataforma a aplicativos de transporte urbano e a hotéis, e explorar nichos como o turismo corporativo e as viagens movidas por grandes eventos. Por ora, a BusCo trabalha para provar uma hipótese mais imediata: a de que, com dados, automação e obsessão por experiência, o velho ônibus de viagem ainda tem muito espaço para crescer. Se a aposta se confirmar, a régua que ela tenta levantar pode acabar puxando o setor inteiro junto.

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