A Rota BR 101 está construindo a parada que as montadoras ainda não têm na estrada

Rede de eletropostos com conveniência completa desenhada para o corredor da BR-101, a Rota BR 101 tem marca registrada desde 2014, quando o negócio ainda era posto de combustível. O fundador, Alex Cardoso, nome conhecido no franchising e no varejo, quer agora sentar com as grandes montadoras para desenhar a parada do carro elétrico na rodovia

1. Uma ideia nascida na estrada

A BR-101 atravessa 4.658 quilômetros de litoral, do Nordeste ao Sul, e concentra parte relevante do fluxo turístico e de carga do país. Foi rodando por ela que Alex Cardoso chegou à leitura que deu origem ao projeto: falta ao corredor uma marca de parada, um padrão de serviço que o viajante reconhece e volta a procurar no trecho seguinte.

“O motorista precisa saber o que vai encontrar na próxima parada. A BR-101 tem o fluxo, tem o litoral, tem o turismo, e não tinha isso”, diz o fundador da Rota BR 101.

2. A recarga é a atração. Não é o produto

Alex Cardoso não veio do setor elétrico. Nome conhecido no mercado de franchising e varejo, ele resolveu entender melhor o mercado de eletropostos e foi buscar conhecimento na fonte: virou acadêmico de engenharia elétrica e transformou a Rota BR 101 em seu primeiro trabalho de extensão acadêmica, avaliado com nota máxima. Para a infraestrutura, transportou o raciocínio de quem abre unidades em escala: ponto comercial analisado um a um, formato padronizado, operação replicável.

A referência é a mais antiga da estrada. O eletroposto cumpre para o carro elétrico o papel que o posto de combustível cumpriu por décadas na rodovia: o lugar onde se para, se abastece e se resolve o resto da viagem. A diferença está no que acontece em volta da recarga. Cada unidade da Rota BR 101 é desenhada como eletroposto com conveniência completa, e o modelo reúne mais de dez frentes de receita: recarga, conveniência completa, souvenirs, assinaturas de conteúdo e de serviços, e-commerce, aluguel de bicicletas, mídia digital em painéis de LED, reciclagem, rede de fornecedores, logística e crédito de carbono, entre outras. A recarga é o atrativo que traz o carro para dentro, não a única linha do caixa.

A lógica é encadeada: a recarga gera fluxo, o tempo de carregamento gera permanência, e a permanência gera consumo. E a estrutura não é exclusiva do carro elétrico. A conveniência completa vai da cafeteria a vestuário, brindes, itens pet e artigos automotivos de viagem, num ambiente com lounge, paisagismo e energia solar que recebe qualquer motorista da rodovia, e o cenário-base do projeto prevê mais de 150 clientes passantes por dia em cada unidade. Cada eletroposto deve gerar de 25 a 35 empregos diretos, e a frente social do grupo é conduzida por um instituto próprio.

3. A marca é de 2014

O projeto começou do zero, antes de a curva atual do mercado se confirmar, e o documento que prova isso é o registro de marca. Cardoso conduziu ele mesmo o pedido no INPI em 2014, quando o negócio previsto era posto de combustível com loja de conveniência. Mas, enxergando um mercado que ainda era uma promessa, antecipou a virada rápida da mobilidade: ele não trocou o nome, abriu um novo registro, agora na frente de energia elétrica, e manteve a marca protegida nos dois universos em que o negócio opera.

O mercado validou a tese depois. No primeiro semestre de 2026, o país emplacou 215.023 veículos eletrificados, alta de 125% sobre o mesmo período de 2025, segundo a ABVE, e junho marcou recorde histórico, com 18,3% de participação nas vendas de veículos leves. A rede pública de recarga chegou a 25,4 mil pontos, mas segue concentrada nos grandes centros do Sudeste e do Sul, longe do corredor que Cardoso mapeou.

4. Vinte unidades próprias para começar, 200 no plano

A primeira etapa da Rota BR 101 prevê 20 eletropostos próprios ao longo do corredor. Cada um ocupa cerca de 3.000 m², opera 24 horas e reúne cinco torres de recarga rápida em corrente contínua com potências diferentes, de 120 kW a 360 kW, dimensionadas do carro compacto ao de luxo: a torre mais potente carrega mais rápido, e o motorista paga pelo tempo que precisa, não por uma potência que o carro não usa. Completam a unidade a conveniência completa com cafeteria, o lounge com paisagismo e os painéis de mídia. O plano de expansão prevê 200 unidades.

Uma decisão de modelo separa o projeto do caminho mais óbvio: nada de converter postos de combustível existentes. As unidades são construídas do zero, o que dá controle sobre layout, experiência e prazo, e evita o licenciamento longo que a desativação de estruturas de combustível costuma exigir.

5. A conversa que ele quer ter com as montadoras

O crescimento da frota puxou as próprias montadoras para dentro da infraestrutura. A BYD, líder de vendas de elétricos no país, opera hoje a maior rede pública de recarga rápida do Brasil, com 125 carregadores instalados e meta de 225 até o fim de 2026, e anunciou um plano de até mil pontos ultrarrápidos até 2027. Só que essa malha está, sobretudo, em concessionárias e em capitais: São Paulo, Minas, Rio, Santa Catarina, Bahia e Brasília. É recarga de cidade.

O corredor de rodovia é outro problema de engenharia e outro problema imobiliário: exige terreno, potência disponível, operação 24 horas e uma parada que sustente meia hora de espera. E é onde a conta do país aperta: são cerca de 19,6 veículos recarregáveis para cada ponto de recarga disponível, quando a referência de setor é de 10 para 1.

É nesse vão que Cardoso quer sentar com a indústria.

“A montadora vende o carro, mas quem entrega a viagem é a estrada. A gente está construindo o ponto onde o cliente dela vai parar, e quer conversar com as grandes montadoras para desenhar isso junto: padrão de recarga, experiência de marca e cobertura garantida no corredor”, diz o fundador.

6. A lição que fica

A trajetória de Alex Cardoso inverte a pergunta que costuma abrir negócios de infraestrutura. Em vez de “onde falta carregador?”, ele partiu de “o que o motorista faz com os 30 minutos em que o carro está carregando?”. É o olhar de quem expandiu redes a vida inteira aplicado a um setor que ainda pensa em quilowatts.

“O que a gente vende é tempo e conforto. Enquanto o carro carrega, o que seria apenas uma parada rápida vira uma experiência completa, com todos os serviços que o viajante precisa. Quem entende de ponto comercial e de padrão de rede enxerga a estrada como uma malha de unidades, e é assim que a Rota BR 101 foi desenhada”, resume o fundador.

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