Da física à infraestrutura de IA: o empresário que opera o que outros só comentam

Guilherme Friol passou a carreira perto da parte da inteligência artificial que não aparece em apresentação, a que precisa funcionar. É dessa cadeira que ele analisa as decisões de IA que as empresas brasileiras terão de tomar.

Há um tipo de conhecimento sobre inteligência artificial que, segundo Guilherme Friol, fundador da Vircos, só se adquire de um lugar específico: o de quem é responsável quando o sistema precisa funcionar de verdade, em produção, com os dados reais de uma organização que não pode falhar. Não é o lugar de quem opina sobre IA, é o de quem responde por ela. E é desse lugar, afirma, que vem a leitura que ele faz do setor.

A trajetória do empresário conta com experiência em   física, administração, pós em Inteligência artificial, Neuro Ciências e Relações Internacionais, e, na avaliação dele, não por acaso. A física ensina a separar o que parece verdadeiro do que é verdadeiro, e a desconfiar de modelo que funciona apenas no quadro. Guilherme Friol conta ter levado essa desconfiança para a tecnologia: quando começou a operar infraestrutura de computação de alto desempenho, a pergunta que o guiava não era se algo era possível em teoria, mas se aguentaria a realidade.

À frente da Vircos há 10 anos, essa pergunta virou seu ofício. A empresa opera a infraestrutura de IA de organizações para as quais funcionar não é opcional: instituições de pesquisa, centros científicos e companhias que lidam com dados que não podem sair de seu controle: instituições educacionais, centros médicos, institutos de pesquisas, empresas de tecnologia, escritórios de advocacia, escritórios contábeis, bancos e indústrias. Não é o tipo de cliente que aceita demonstração bonita, observa o fundador, e sim o que pergunta o que acontece no pior dia e espera uma resposta que se sustente.

Por que a trajetória importa para o debate

Guilherme Friol faz questão de situar a própria história não como currículo, mas como contexto. O Brasil, argumenta, está prestes a tomar uma série de decisões importantes sobre inteligência artificial, em empresas de todos os tamanhos, e a maior parte do que se escreve sobre o tema vem de quem observa o setor de fora. Há valor nisso, reconhece, mas também um ponto cego: a distância entre o que parece funcionar numa apresentação e o que de fato funciona quando precisa rodar é justamente onde as decisões mais caras são tomadas, e é o terreno que ele diz conhecer melhor.

São três as convicções que, segundo o empresário, orientam sua leitura de IA como negócio, todas formadas na prática. A primeira é que soberania sobre os próprios dados deixou de ser discurso e virou requisito  prático de quais riscos uma empresa pode ou não aceitar. A segunda é que a maior parte das frustrações com IA não nasce de tecnologia ruim, e sim de decisão apressada, comprar antes de entender o problema. A terceira é que a pergunta certa quase nunca é técnica: é de negócio, e por isso pertence a quem dirige a empresa, não a quem instala o sistema.

É dessas convicções, diz, que sairão as análises que assina nas próximas semanas, sobre quando comprar e quando construir IA, sobre por que o cargo da moda nas empresas está sendo criado de forma equivocada, e sobre o que separa, na prática, a empresa que vai ganhar com inteligência artificial da que vai apenas gastar com ela. Para ele, no debate brasileiro sobre IA, está faltando exatamente essa cadeira, a de quem opera, e não apenas assiste.

Guilherme Friol resume a régua que diz aplicar a cada análise: prefere o que funciona ao que impressiona, a decisão à ferramenta, e a pergunta honesta à resposta pronta. É assim, afirma, que opera a Vircos e que pensa o setor. O restante, conclui, fica para o leitor julgar pela consistência ao longo do tempo, que é, no fim, a única prova de autoridade que vale alguma coisa.

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