Juliana Angheben analisa sinais de relações abusivas em novo projeto

Psicanalista e doutora em Ciências pela UNIFESP aborda como comportamentos de controle podem afetar vínculos afetivos e a autonomia emocional

Os relacionamentos abusivos têm ganhado espaço no debate público com o avanço das discussões sobre saúde emocional, violência nas relações e os mecanismos que podem manter pessoas presas a vínculos marcados pelo controle. Para a psicanalista e doutora em Ciências pela UNIFESP Juliana M. M. Angheben, autora do Manual dos Relacionamentos Abusivos, compreender esse fenômeno exige olhar para o início da dinâmica, antes que situações mais graves se tornem evidentes. Segundo ela, reconhecer determinados comportamentos pode ser importante para refletir sobre os limites e a qualidade de uma relação.

A especialista explica que uma relação abusiva nem sempre começa com uma situação claramente identificável como violência. Em muitos casos, determinados comportamentos aparecem inicialmente revestidos de cuidado, proteção, ciúme ou intensidade emocional. O parceiro pergunta onde a mulher está, quer saber com quem ela conversa, demonstra incômodo com determinadas amizades, questiona suas roupas ou faz críticas recorrentes às suas escolhas. “Isoladamente, alguns desses comportamentos podem parecer pouco significativos. O problema está na dinâmica que vai se estabelecendo, quando o cuidado progressivamente se transforma em controle”, afirma Juliana.

De acordo com a psicanalista, uma das dificuldades para identificar esse tipo de dinâmica está justamente em seu caráter progressivo. Os limites pessoais podem ser deslocados pouco a pouco, enquanto a mulher passa a fazer concessões para evitar discussões e preservar momentos de tranquilidade. Com o tempo, aquilo que parecia inaceitável no começo pode ser incorporado à rotina. “Os limites vão sendo deslocados pouco a pouco. Aquilo que seria absolutamente inaceitável no início pode, depois de sucessivas concessões, passar a fazer parte do cotidiano”, explica.

Esse processo pode levar a mulher a modificar hábitos, amizades, roupas, horários e até a forma de se expressar. Ela começa a pensar antes de falar, calcula as possíveis reações do parceiro e passa a evitar assuntos que possam provocar conflitos. É nesse cenário que surge uma sensação frequentemente descrita como “pisar em ovos”. Para Juliana, quando uma pessoa passa a viver em permanente estado de vigilância dentro da própria relação, é importante observar o que está acontecendo e refletir sobre os limites estabelecidos naquele vínculo.

A violência psíquica, segundo a especialista, também pode afetar a percepção que a mulher construiu sobre si mesma. Em uma relação marcada por desqualificação, críticas e manipulações, sentimentos e opiniões podem começar a ser questionados pela própria pessoa. “Aos poucos, ela pode começar a duvidar do que sente, do que pensa e até da legitimidade do próprio incômodo”, afirma. Frases como “Será que estou exagerando?” ou “Talvez eu seja realmente difícil” podem aparecer como consequência de um processo no qual a mulher deixa de confiar nas próprias referências.

Outro ponto destacado pela psicanalista é a pergunta frequentemente dirigida às mulheres quando situações de violência chegam ao conhecimento público: “Por que ela não foi embora?”. Para Juliana, essa formulação simplifica uma situação que pode envolver diferentes fatores emocionais, sociais e, em determinados casos, econômicos. “Sair de uma relação abusiva não é uma decisão exclusivamente racional. Existem vínculos afetivos, medo, dependência financeira em alguns casos, filhos, vergonha, esperança de mudança e uma história emocional construída dentro daquela relação”, explica.

“Nem todo relacionamento abusivo evoluirá para violência física, e seria irresponsável fazer essa associação automática. Mas também não é necessário esperar que uma situação se agrave para reconhecer que determinados comportamentos podem ser prejudiciais”, afirma. A observação chama atenção para formas de violência psicológica e comportamentos de controle que podem permanecer pouco visíveis durante longos períodos. Controle excessivo, perseguição, desqualificação, ameaças e tentativa de afastar a mulher de sua rede de apoio podem produzir impactos importantes mesmo quando não deixam marcas físicas.

Sobre Juliana Angheben

Dra. Juliana M. M. Angheben é psicanalista, membro do Corpo Freudiano de Campo Grande, doutora em Ciências pela UNIFESP e colunista de Saúde Mental do programa Manhã Melhor, da Record News. Atua na clínica psicanalítica em Alphaville, São Paulo, e estuda vínculos afetivos, repetição, narcisismo, dependência emocional e relacionamentos abusivos. É autora do Manual dos Relacionamentos Abusivos e desenvolve trabalhos de ensino e divulgação da Psicanálise.

Contato:

Instagram @drajulianaangheben | Consultório: (11) 97074-0959 / (11) 99204-0831

E-book Manual dos Relacionamentos Abusivos: https://chk.eduzz.com/797VAEN1WE

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