O projeto de IA que funciona na demonstração e para na operação

Apenas 5% das empresas que investem em inteligência artificial generativa chegaram à produção com impacto financeiro mensurável, segundo levantamento do MIT. A distância entre demonstrar e operar tem causas identificáveis, e nenhuma delas está na qualidade do modelo

O relatório State of AI in Business 2025, produzido pela iniciativa NANDA, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mapeou o percurso do investimento corporativo em inteligência artificial generativa e encontrou um funil íngreme. Cerca de 80% das organizações analisadas experimentaram ferramentas do tipo, aproximadamente 20% avançaram para pilotos estruturados e somente 5% chegaram à produção com retorno financeiro mensurável, apesar de aportes globais estimados entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões.

A Gartner chega a um diagnóstico convergente por outro caminho: projeta que mais de 40% dos projetos de inteligência artificial agêntica sejam cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro e controles de risco inadequados. Em seu ciclo de expectativas de 2026, a consultoria registra que apenas 17% das organizações efetivamente implantaram agentes, enquanto mais de 60% pretendem fazê-lo em dois anos.

Os dois levantamentos medem coisas diferentes, mas descrevem o mesmo trajeto: os projetos não morrem na experimentação, morrem na travessia entre o piloto que convence e o sistema que opera. Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, essa travessia é o ponto cego do mercado. A distância entre uma demonstração bem-sucedida e um sistema em operação não é de capacidade do modelo, é de engenharia em torno dele.

“A demonstração mostra o sistema acertando. A operação é definida pelo que acontece quando ele erra, e essa parte quase nunca está no projeto”, afirma Friol.

A frase resume o critério que ele aplica para avaliar se um projeto está pronto para sair do piloto. São quatro componentes que a demonstração não exige e a operação cobra: tratamento de erro, escalonamento humano, monitoramento e isolamento da regra de negócio. Nenhum dos quatro aparece quando o sistema acerta. Todos definem o que acontece quando ele erra.

O primeiro, tratamento de erro, responde à pergunta mais básica da operação: o que o sistema faz quando não tem confiança na resposta, quando o dado de entrada vem incompleto ou quando a integração com outro sistema falha. Em ambiente de demonstração, esses casos não aparecem, porque os exemplos são escolhidos.

O segundo é o escalonamento humano. Processos que envolvem decisão precisam de um caminho definido para transferir o caso a uma pessoa, com o contexto preservado e com registro do motivo. Sem esse desenho, o sistema ou trava a operação ou decide sozinho o que não deveria.

O terceiro é o monitoramento. Sem medição contínua de qualidade da resposta e de custo por operação, a degradação só é percebida quando um cliente reclama ou quando a fatura chega fora do esperado.

O quarto é o mais estrutural. Sistemas de inteligência artificial em produção mudam de comportamento sem que o cliente altere nada, porque o modelo por trás deles é atualizado pelo provedor. Uma arquitetura preparada para operação isola a regra de negócio da tecnologia que a executa, de forma que a troca de um modelo não exija reconstruir o processo.

O próprio estudo do MIT traz um dado que costuma ser lido como argumento contra construir: iniciativas conduzidas em parceria com fornecedores especializados apresentaram taxa de sucesso aproximadamente duas vezes maior do que construções internas. Friol faz uma distinção sobre o que o número de fato compara.

“O estudo não compara comprar com construir. Compara quem tem engenharia no projeto com quem não tem. Construção interna sem time especializado falha mais mesmo, e é por isso que existe engenharia externa”, diz o executivo.

Os quatro componentes também explicam a diferença de orçamento que costuma travar projetos. Um piloto custa pouco e entrega rápido justamente porque não inclui nenhum deles. A conta da operação inclui todos, e a diferença entre os dois orçamentos costuma ser interpretada como sobrepreço, quando é, na verdade, a descrição do que separa uma demonstração de um sistema em uso.

O ajuste que se desenha para os próximos anos, segundo Friol, é de critério de avaliação. Enquanto o sucesso de uma iniciativa de inteligência artificial for medido pela demonstração que convence o comitê, o funil descrito pelo MIT tende a permanecer onde está. Medir pela operação estável em ambiente real reduz o número de projetos aprovados e aumenta a proporção dos que chegam ao fim.

Artigos Relacionados

Quando todo mundo é gerente, quem realmente manda?

Giovana Atarasi Jurca analisa o que acontece no dia a dia empresarial e o descompasso com a legislação

Governança de IA: o ponto cego estratégico para empresas

A inteligência artificial já entrou nas empresas brasileiras. Em muitos casos, porém, entrou pelas portas dos fundos: sem aviso, sem registro e sem que a liderança percebesse

Gestão de viagens: o fator humano além da automação

Em um mercado em que a automação virou padrão básico, a capacidade humana de tomada de decisão sob pressão tornou-se a métrica definitiva de segurança operacional para os negócios

5ª edição do Prêmio ComunicAÇÃO celebra nomes que fazem história na comunicação do Sul Fluminense

Idealizado pelo colunista social Fábio Soares, evento reúne profissionais,...

Dra. Natália Negreiros defende debate sobre internação de menores

O uso de álcool e outras drogas entre crianças e adolescentes tem levado famílias e profissionais da saúde mental a discutir formas de intervenção cada vez mais precoces. A preocupação é especialmente grande diante de relatos de crianças que entram em contato com substâncias ainda na infância e, quando o problema é identificado pelos responsáveis, já apresentam um quadro de uso mais frequente ou associado a outras drogas