Queda da Selic abre novas oportunidades para quem investe e deve

Redução da taxa básica de juros tende a baratear empréstimos e diminuir rendimento da renda fixa, mas especialista alerta que consumidor não deve esperar alívio imediato no orçamento.

A decisão do Banco Central de reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano reacendeu uma pergunta comum entre consumidores: afinal, o que muda, na prática, na vida de quem paga boleto, usa cartão de crédito, financia um carro ou mantém dinheiro aplicado?

A resposta é menos imediata do que muita gente gostaria. A queda da Selic não derruba automaticamente os juros do cartão, não reduz de uma vez a prestação do financiamento e tampouco faz o supermercado ficar mais barato no dia seguinte. Mas ela altera o custo do dinheiro na economia e, aos poucos, influencia decisões de bancos, empresas e famílias.

Para André Charone, contador, professor universitário e especialista em finanças e negócios, a Selic funciona como uma espécie de “termostato” da economia brasileira.

“Quando a Selic cai, o dinheiro tende a ficar menos caro. Isso pode estimular o consumo, facilitar o crédito e aliviar um pouco o custo das dívidas. Mas esse movimento não chega ao bolso da população no mesmo dia da decisão do Copom. Existe um caminho entre a taxa definida pelo Banco Central e a taxa cobrada do consumidor na ponta”, afirma Charone.

Na prática, quem mais espera sentir a diferença são pessoas que pretendem contratar novos financiamentos, renegociar dívidas ou trocar uma dívida cara por outra mais barata. Ainda assim, o especialista pondera que a redução recente, de 0,25 ponto percentual, é pequena diante do nível ainda elevado dos juros no país.

“É uma sinalização importante, mas não é uma virada de chave. A Selic continua alta. Para o consumidor comum, a mensagem não deve ser ‘agora posso me endividar’, mas sim ‘talvez seja hora de comparar taxas, renegociar contratos e reorganizar o orçamento’”, diz.

Crédito pode ficar mais barato, mas não para todo mundo

A Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela influencia o custo de captação dos bancos e serve de referência para diversas operações financeiras. Quando cai, a tendência é que empréstimos, financiamentos e linhas de crédito fiquem menos caros ao longo do tempo.

Mas essa transmissão é desigual. O consignado, financiamentos com garantia e linhas para clientes com bom histórico tendem a sentir antes. Já modalidades mais caras, como rotativo do cartão de crédito e cheque especial, continuam pressionadas por fatores como inadimplência, risco do cliente e margem dos bancos.

Charone explica que a taxa básica é apenas uma parte da conta.

“O consumidor muitas vezes ouve que a Selic caiu e espera que o banco reduza imediatamente os juros do cartão. Não é assim. A taxa final inclui risco, impostos, custos administrativos, margem de lucro e perfil de crédito. Por isso, a queda da Selic ajuda, mas não faz milagre”, afirma.

Segundo ele, a principal oportunidade para as famílias está na renegociação. Quem tem dívida cara deve procurar o banco, comparar propostas em outras instituições e avaliar a portabilidade.

“Se a pessoa deve no cartão ou no cheque especial, a prioridade continua sendo sair dessas linhas. Mesmo com Selic em queda, elas permanecem entre as modalidades mais pesadas para o orçamento. A redução da taxa básica pode abrir uma janela para trocar dívida ruim por dívida menos ruim”, diz Charone.

Renda fixa rende menos

Se para quem toma crédito a Selic menor pode ser uma boa notícia, para quem investe em renda fixa o efeito é o oposto: a rentabilidade tende a cair.

Aplicações como Tesouro Selic, CDBs pós-fixados, fundos DI e contas remuneradas acompanham, direta ou indiretamente, a taxa básica ou o CDI. Com a Selic menor, esses produtos continuam rendendo, mas passam a pagar um pouco menos.

Um exemplo simples ajuda a visualizar. Em uma aplicação de R$ 10 mil atrelada a 100% do CDI, uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa anual representa, de forma aproximada, R$ 25 a menos de rendimento bruto em um ano. Em R$ 50 mil, a diferença seria de cerca de R$ 125 no mesmo período, antes de impostos e taxas.

Para Charone, isso não significa abandonar a renda fixa.

“A renda fixa continua tendo papel essencial, principalmente para reserva de emergência. O erro é achar que a queda da Selic obriga todo mundo a correr para investimentos de risco. Antes de buscar rentabilidade maior, a pessoa precisa saber se tem reserva, se tem dívidas caras e qual é o prazo do dinheiro”, afirma.

Segundo ele, a queda dos juros tende a levar parte dos investidores a olhar com mais atenção para fundos multimercados, ações, fundos imobiliários e títulos prefixados ou indexados à inflação. Mas essa migração deve ser feita com cautela.

“Juro menor aumenta o apetite por risco, mas risco não desaparece. O investidor pessoa física precisa evitar decisões por impulso. Muitas vezes, perder um pouco de rentabilidade na reserva de emergência é melhor do que colocar o dinheiro do aluguel, da escola ou da saúde em ativos voláteis”, diz.

Preços não caem de imediato

No supermercado, no posto de gasolina e na feira, o consumidor não deve esperar queda imediata de preços. A Selic atua sobre a inflação principalmente ao influenciar consumo, crédito e atividade econômica.

Quando os juros estão altos, comprar a prazo fica mais caro, empresas investem menos e consumidores tendem a gastar com mais cautela. Isso ajuda a reduzir a pressão sobre os preços. Quando a taxa começa a cair, o crédito pode voltar a circular com mais força, o que estimula a economia, mas também exige atenção para que a inflação não volte a acelerar.

Charone afirma que o consumidor precisa separar duas coisas: inflação menor e preço menor.

 Imagem André: Divulgação / Consultório da Fama

“Quando a inflação cai, isso não quer dizer que os preços vão voltar ao patamar anterior. Significa, em regra, que eles estão subindo mais devagar. Para a população, a sensação de alívio só aparece de verdade quando renda, emprego e preços caminham de forma mais equilibrada”, afirma.

O que fazer agora

Para quem está endividado, a recomendação é listar todas as dívidas, identificar as taxas mais caras e buscar renegociação. A prioridade deve ser eliminar cartão de crédito rotativo, cheque especial e empréstimos de curto prazo com juros elevados.

Para quem pretende financiar, o ideal é simular em mais de uma instituição e não olhar apenas o valor da parcela. O custo efetivo total, que inclui juros, tarifas, seguros e encargos, é o que mostra o peso real da operação.

Para quem investe, o momento pede revisão, não desespero. A reserva de emergência deve continuar em aplicações seguras e líquidas. Já objetivos de médio e longo prazo podem justificar uma diversificação maior, desde que compatível com o perfil do investidor.

“Selic menor muda o jogo, mas não muda os fundamentos da educação financeira. Antes de pensar em ganhar mais, a pessoa precisa parar de perder dinheiro com juros altos. E antes de investir melhor, precisa saber para que serve cada parte do dinheiro que ela guarda”, afirma Charone.

A queda da Selic, portanto, é uma boa notícia para a economia, mas seus efeitos são graduais. No bolso da população, ela aparece menos como um desconto imediato e mais como uma oportunidade: renegociar dívidas, comparar crédito, rever investimentos e planejar melhor o consumo.

Como resume Charone, “a Selic caiu, mas o orçamento doméstico continua exigindo a mesma regra básica: gastar menos do que ganha, fugir das dívidas caras e fazer o dinheiro trabalhar a favor da família, não contra ela”.

Sobre André Charone

André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).

É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional.

Seu mais recente trabalho é o livro “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.

Serviço

Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/

Digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1

Instagram: @andrecharone

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